sábado, 6 de julho de 2013

"Lembra de mim?"

Ontem aconteceu isso comigo... eu ri sozinha e me lembrei imediatamente dessa crônica...

Grande Edgar
Por Luis Fernando Verissimo

Já deve ter acontecido com você.
— Não está se lembrando de mim?
Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra?
Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir.
Um, curto, grosso e sincero.
— Não.
Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O "Não" seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Passe bem. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem. Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação.
— Não me diga. Você é o... o...
"Não me diga", no caso, quer dizer "Me diga, me diga". Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como: 
— Desculpe, deve ser a velhice, mas...
Este também é um apelo à piedade. Significa "não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!". É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua. 
E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe.
— Claro que estou me lembrando de você!
Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata: 
— Há quanto tempo!
Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.
— Então me diga quem sou.
Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, e falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas: 
— Pois é.
Ou:
— Bota tempo nisso.
Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem será esse cara meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas no meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como jabs verbais.
— Como cê tem passado?
— Bem, bem. 
— Parece mentira. 
— Puxa.
(Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus?)
Ele esta falando: 
—Pensei que você não fosse me reconhecer...
—O que é isso?!
—Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.
—E eu ia esquecer de você? Logo você?
—As pessoas mudam. Sei lá.
— Que idéia. (é o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O... o... como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. "Que bom encontrar você!" e paf, chuta uma perna. "Que saudade!" e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?)
— É incrível como a gente perde contato.
— É mesmo.
Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso.
— Cê tem visto alguém da velha turma?
— Só o Pontes.
— Velho Pontes! (Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes...)
— Lembra do Croarê?
— Claro!
— Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo.
— Velho Croarê. (Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.)
— Rezende...
— Quem?
Não é ele. Pelo menos isto esta esclarecido.
— Não tinha um Rezende na turma?
— Não me lembro.
— Devo esta confundindo.
Silêncio. Você sente que esta prestes a ser desmascarado.
Ele fala:
— Sabe que a Ritinha casou?
— Não!
— Casou.
— Com quem?
— Acho que você não conheceu. O Bituca. (Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador . Você esta tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?)
— Claro que conheci! Velho Bituca...
— Pois casaram.
É a sua chance. É a saída. Você passou ao ataque.
— E não avisou nada?
— Bem...
— Não. Espera um pouquinho. Todas essas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, O Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?
— É que a gente perdeu contato e...
— Mas meu nome tá na lista meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.
— É...
— E você acha que eu ainda não vou reconhecer você. Vocês é que se esqueceram de mim.
— Desculpe, Edgar. É que...
— Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam. ( Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele esta na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de "Já?!".)
— Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?
— Certo, Edgar. E desculpe, hein?
— O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido.
— Isso.
— Reunir a velha turma.
— Certo.
— E olha, quando falar com a Ritinha e o Manuca...
— Bituca.
— E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?
— Tchau, Edgar!
Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer "Grande Edgar". Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar "Você está me reconhecendo?" não dirá nem não. Sairá correndo.

Texto extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 13.

Receitas recentes e um filme a NÃO ver

Depois de uma estendida ausência do blog, volto para postar algumas receitas que venho testando - menos do que gostaria, mas melhor que nada...

1. Pão de abobrinha (do livro da Heloisa Bacellar)
1 1/2 xícara de abobrinha italiana bem verde radada grosso
1 1/2 xícara de farinha de trigo
2 colheres (chá) de fermento em pó
1/2 colher (chá) de sal
1 pitada de pimenta do reino
1/4 colher (chá) de bicarbonato de sódio
1/2 xícara de óleo
3/4 xícara de queijo parmesão ralado
2 ovos
manteiga para untar
farinha de trigo para polvilhar
Unte uma forma de bolo inglês e enfarinhe. Numa tigela, misture a abobrinha, a farinha, o fermento, o sal, a pimenta e o bicarbonato e reserve. Em outra tigela, bata o óleo, o parmesão e os ovos com uma batedeira até obter um creme esbranquiçado. Junte a mistura de abobrinha, despeje na forma e asse por uns 40 minutos, até que o pão esteja crescido, dourado e que, enfiando um palito no centro, ele saia limpo.Desenforme e sirva em fatias.

2. Bolo de Banana (gentilmente cedida pelo Sergio e ligeiramente modificada):
6 ovos, 2 copos de açúcar, 2 copos de farinha de trigo, 1 copo de suco de laranja, 1 colher (sopa) de fermento em pó, 6 bananas d'água, açúcar e canela para polvilhar.

Bata as claras em neve. Junte as gemas (uma a uma) e continue batendo. Adicione o açúcar, bata, e em seguida adicione alternando o suco de laranja e a farinha de trigo. Por último junte o fermento e misture.
Unte um tabuleiro grande e polvilhe com açúcar e canela. Forre com as bananas fatiadas, espalhe a massa por cima e polvilhe novamente com açúcar e canela. Asse em forno médio pré-aquecido por cerca de 30 minutos.

3. Bolo de chocolate sem farinha (do site Rainhas do Lar)
(essa receita está transcrita como no site, mas eu fiz com calda de brigadeiro)

Massa:
6 unidade(s) de ovo
6 colher(es) (sopa) de achocolatado em pó
2 colher(es) (sopa) de manteiga
2 colher(es) (sopa) de fermento químico em pó
8 colher(es) (sopa) de açúcar 
100 gr de coco ralado(s)

Cobertura:
1 lata(s) de creme de leite sem soro
4 colher(es) (sopa) de achocolatado em pó
2 colher(es) (sopa) de açúcar 

Modo de fazer:
Bata todos os ingredientes da massa no liqüidificador,exceto o fermento e reservando 50 g de côco ralado. Em seguida, adicione o côco reservado e o fermento .Misture levemente com auxílio de uma colher. Unte uma fôrma pequena de pudim e despeje a massa. Leve para assar em forno médio pré-aquecido a 180ºC,por cerca de 30 minutos. Depois de assado,com o bolo quente, jogue a calda. Se desejar polvilhe côco ralado.

4. Brownies de chocolate sem farinha da Nigella
para o brownie
225 g de chocolate meio amargo
225 g de manteiga
2 colheres (chá) de extrato de baunilha
200 gramas de açúcar 
3 ovos grandes (batidos)
150 g  de amêndoas
100 g de nozes picadas

para a calda de chocolate quente
75 gramas de chocolate escuro (mínimo 70% de cacau)
125 ml de creme de leite
2 colheres de chá de pó de café instantâneo
2 colheres de sopa de água
1 colher de sopa de Karo

Modo de fazer: 

Para o brownies:
Pré-aqueça o forno a 170ºC 
Derreta o chocolate e a manteiga levemente em fogo baixo ou microondas.
Leve a panela fora do fogo, misture a baunilha e o açúcar e deixe esfriar um pouco.
Bata os ovos na panela junto com as amêndoas e as nozes picadas. Leve a assar em tabuleiro quadrado de 24cm untado.
Asse no forno por 25-30 minutos, (a parte superior terá formado uma casquinha mas a mistura ainda estará pegajosa). Retire do fogo, deixe esfriar e corte em 16 quadrados.

Para a calda
Quebre o chocolate e coloque em uma panela com base pesada. Dissolva o pó de café instantâneo na água e adicione, juntamente com os restantes ingredientes na panela, coloque a panela em fogo brando e deixe derreter tudo junto. Uma vez que tudo tenha derretido, misture bem, retire do fogo e despeje em uma jarra para servir.

Quanto ao filme: apesar de fugir completamente ao escopo desse blog, eu me sinto no dever de informar às pessoas sobre ele. O nome é A Espuma dos Dias (eu concordo plenamente com essa crítica). É tão ruim, mas tão ruim que eu nem consigo explicar o motivo. Apenas um conselho: não assistam. Nem quando passar na sessão da tarde: se isso acontecer, desliguem a TV e durmam, façam uma caminhada, leiam um livro ou façam um bolo - garanto que sairão no lucro!